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DE VOLTA PARA O FUTURO
Estado de Minas
22/12/2002
 
 
Em primeiro plano, uma perna, um tênis, um pedaço de calção preto. No segundo, outra perna, short branco, sandália, nesga de mão. Uma cena típica de praia, vista de ângulo inusitado, tendo ao fundo o céu do Rio de Janeiro sem sua óbvia exuberância, mas num cinza reticulado e discreto. No encarte, as cores ganham vida, mas não gritam, não escancaram a beleza.

Assim podem ser descritas as fotos que embalam Déjà-vu, CD que marca a volta do grupo Metrô, um dos mais bem sucedidos do rock dos anos 80, depois de uma ausência de 17 anos. Um trabalho gráfico feliz, que traduz com fidelidade o disco, gravado em abril passado num estúdio carioca, no bairro de Santa Teresa. É lá que vive um dos integrantes, Dany Roland, que há mais de um ano vinha tentando fazer esta gravação com Virginie, que morava na França e se mudou para Maputo, Moçambique. E com Yann Lao, com casas em São Paulo e Ilhabela, depois de uma longa temporada na Europa.

Atendendo à onda de revival da época, que trouxe retornos bem sucedidos de Ultraje a Rigor e Capital Inicial, e outras menos felizes, como a do RPM, eles fizeram releituras de sucessos que, de alguma maneira, anteciparam o casamento de pop e bossa que marcou boa parte da produção da década de 90. Johnny Love, Beat Acelerado e Sândalo de Dândi voltam de roupas novas e modernas, amparadas por climas eletrônicos. A primeira, com teclados etéreos e andamento mais lento, ondulante. A segunda, aditivada pelo violão do baiano Lucas Santtana e baixo de Zavie Leblanc, capaz de conviver em igualdade de condições com Bebel Gilberto e sua turma. E o novo sândalo, com arranjo lembrando a dupla Belle & Sebastian, com mais pique e ar de Air.

Busca de referências

Mas, fica por aí a concessão ao próprio passado, e nítida a impressão de, por ser um trabalho independente, que o Déjà-vu do título se refere mais a uma busca de referências sentimentais e musicais de cada um do que a necessidade de repetição de fórmulas. O grupo, que já havia dado uma guinada radical no último trabalho, A Mão de Mao, recupera o gosto por boas melodias e se aproxima da chamada MPB e de músicos do cenário atual.

Daí que, entre as 19 faixas e os mais de 78 minutos de duração, o disco oferece ao ouvinte uma viagem que lembra os deslocamerntos geográficos de seus integrantes, que andaram por Europa, África e vários Brasis nos últimos 17 anos. O CD abre com uma leitura cool de Mensagem de Amor, do colega de geração Herbert Vianna, universaliza ainda mais as sonoridades de Jorge Benjor (Que nega é essa), Caetano Veloso (Coração Vagabundo) e Ary Barroso (Aquarela do Brasil, com vocais adicionais de Preta Gil). Do jazzista Charlie Haden (Silence) ao sambista Ataulfo Alves (Leva meu Samba, com a dupla Mautner e Jacobina tropicalizando a versão), a receita inclui referências a Ella Fitzgerald (Every one is wrong but me) e Jair Rodrigues (Rapaz da Moda, da dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia), recriação de um mote popular do Ceará (Achei Bonito) e de um tema de Arto Lindsay (Resemblances), uma das influências confessas do trio. Há até uma ponte com a cantora belga Laurence Marien (Missing you) e, na faixa-título, poéticas intervenções de Otto e de Wally Salomão, além da auto-referência da música Lótus, sampleada de um dos primeiros discos do grupo.

Lançado pelo selo BD, com distribuição da Distribuidora Independente, ligada à gravadora Trama, Déjà-Vu é um passaporte de um grupo dos anos 80 para o terceiro milênio. Um metrô de linhas modernas, vagões confortáveis, trajetos bem escolhidos, ar condicionado funcionando com perfeição, velocidade adequada e passageiros bem escolhidos. E ótimo som ambiente.
(Kiko Ferreira)
 

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