OLHAR
Homepage do Metrô
 
(por DANY)
 
 
         O começo...
Um amigo guitarrista nosso voltou de Londres e mostrou seu disco. Lembro que enlouqueci... Nós todos. E pensamos "é isso que queremos fazer". Era uma mistura de Television, Blondie, Talking Heads, mas bem inglês.
Eu gostava muito de Cólera (e, lógico, Sex Pistols), vi vários shows deles mas nunca fui Punk. Estudei com Zé Eduardo Nazário - baterista de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, então minha formação era mais Maracatu, Jazz, por causa do Zé, e claro Rock sessenta e setenta.
 
         Influências...
 Não posso esquecer também que fomos muito influenciados por nosso baixista na época: deus Tavinho Fialho. Ele era também baixista de Arrigo Barnabé, depois da Gang 90 e ainda Legião Urbana e Caetano Veloso e infelizmente, faleceu em um acidente de carro deixando Cássia Eller grávida de um menino.
Ele sempre queria que tocássemos coisas mais "pop" e era o único que vivia de música - o que era incrível para nós, pois éramos tão garotos (nem tanto... eu 20 e os outros 18) e era raro bandas de Rock gravarem. Existia os Independentes no Lira Paulistana, mas não era Rock, pois naquela época só existia espaço para cantores, lembra?
Nosso 1º disco foi independente.
 
         O fim da Gota Suspensa...
Muita gente ficou decepcionada mesmo, pois "A Gota" já tinha um certo público em São Paulo. Fizemos muitos shows em Sampa, sempre em teatros (coisa rara hoje), lotados só no boca a boca (Tuca, Faap, Mackenzie, etc. e o primeiro show do maravilhoso Carbono 14 e só depois nas danceterias Rose bombom, entre outras) e no Rio também pois Voyage tocava direto na programação da rádio Fluminense.
 
Mas já estávamos cansados de nossos experimentos progressivos e instrumentais e chamamos a Virginie para cantar no disco da Gota. Ela já tinha sido cantora da banda em 1979 e nessa época nosso estilo era mais "Novos Baianos". Não perdíamos um show deles e até viajávamos para vê-los tocar e jogar futebol. Tocávamos baião, sambarock e "vivíamos" em Ajuda, Trancoso, Mauá. Tínhamos cabelos compridos e usávamos batas indianas e sandálias da Bahia. A Gota teve uma centena de formações.
Fizemos as músicas "pop" do disco da Gota em 2 dias e ficamos muito felizes de voltar a tocar músicas simples. Foi uma Libertação! Tudo isso graça ao Punk!
 
         A mudança...
O que tem que ficar claro é que nós não mudamos da Gota para Metrô para ter sucesso, mas para MUDAR (no melhor sentido da palavra), não tem sentido ficar preso a um estilo único a vida toda... Ainda mais para 4 garotos fazendo música com tudo para aprender, música é para libertar e não para aprisionar... O mundo muda a cada segundo... (só João Gilberto pode, mas ele nunca é o mesmo pois a cada dia que passa ainda fica melhor, um deus!!!!)
Uma coisa deve ficar clara de uma vez por todas: não gravamos Beat Acelerado para obter sucesso, muito pelo contrário, tivemos que lutar - e bota ralação nisso - muito para que Beat Acelerado fosse um sucesso nacional (uma Bossa Nova!!!!) escancarada no meio daquela New Wave toda.
 
         Sobre a relação com os jornalistas...
Era hilário, os Jornalistas metiam o pau mesmo, mas eram mais o Pepe Escobar e o Miguel de Almeida, então na Ilustrada. Mas foi bom porque virou assunto. Não tinha espaço na mídia para "rock", só nas especializadas eram lançadas e desapareciam depois de uma ou algumas edições tipo Rock a Historia & a Gloria com Ezequiel Neves, Ana Maria Bahiana, Okky, Tarik. Tenho até hoje a coleção completa em algum lugar. Éramos carentes de informação sobre Música, equipamentos.
Eu estudei Jornalismo na PUC. Tranquei quando fui gravar o disco da GOTA, para desespero de meu pai, e já na época do Metrô muitos amigos, como Fernando Naporano, trabalhavam na Folha então era engraçado pois o mundinho era muito pequeno e nos encontrávamos sempre nas noites de São Paulo (ainda não era essa loucura... a noite), no Rose, Napalm e outros.
 
         O sucesso...
Antes um pequeno porém, quando mostramos Beat Acelerado foi uma batalha conseguir gravá-la... Ninguém queria. Ainda o Rock Brasil não tinha espaço. Só Rita tinha este espaço... E a Blitz, que de fato impulsionou todo mercado, começando...
 
Quando lançamos o CD, desculpe, LP do Metrô, Sândalo (lado B de Beat Acelerado) surpreendentemente estourou nas rádios. Depois veio Tudo Pode Mudar, Olhar. Estávamos fazendo show em Manaus quando soubemos que Tia Rita (deusa absoluta da minha infância e adolescência - eu morava no Parque das Hortênsias e os Mutantes eram meus vizinhos!!!!! Eu brincava no Buggy USA deles e era louco para roubar a boina do Serginho Dias que ele sempre esquecia na garagem) queria que gravássemos Ti Ti Ti, voltamos na mesma noite depois do Show fomos direto para o estúdio, fizemos o arranjo, gravamos, mixamos e a novela estreou dois dias depois. Foi uma loucura!!!!!
Nossa vida virou uma loucura. Foi isso que acabou com o Metrô.
 
Fazíamos Shows de terça a domingo só em Ginásios e Estádios de Futebol (uma MERDA!!!), sendo que sábado, seja onde estivéssemos, voltávamos para o Rio para gravar o programa do Chacrinha.
 
O que nos REUNIU quando eu tinha 15 anos de idade (Alec então com 13) foi a MÚSICA, o TRABALHO ("só o trabalho dignifica o homem"; éramos workaholics e ainda somos...) e não o SUCESSO e a FAMA...
 
         O fim...
Ficávamos muito frustrados quando não conseguíamos fazer o show como queríamos, porque o som, a luz... Éramos uns pentelhos e músicos no pior significado da palavra... Ficávamos frustrados. Não existia tecnologia para tocar em lugares tão grandes (só os internacionais dispunham quando vinham, por incrível que pareça...)
Implodimos...
Fomos radicais. Poderíamos ter administrado e diminuído o ritmo, mas para desespero da Sony e do Poladian, resolvemos PARAR no auge.
 
O SUCESSO DO METRÔ FOI RÁPIDO PORQUE NÓS O ABORTAMOS...
 
Estávamos pela primeiríssima vez na vida ganhando dinheiro com nosso trabalho - e bota trabalho nisso - e PIOR AINDA, ironia do destino, pela 1ª vez na vida não tínhamos TESÃO em fazer o que mais amávamos fazer... NOSSO SONHO... Desde que me lembro por gente, nunca tive outra vontade de fazer senão música... Sempre foi isso que quis fazer desde de muito moleque...
Éramos jovens, eu tinha 23 e lembro bem que pensei "não quero passar a vida toda sendo Metrô...". Não assim desse jeito.
Alec foi para Jamaica, fui para o Peru e os outros para Europa... Quando nos reencontramos, alguns meses depois e Johnny Love estourado nas rádios, não tinha mais clima e nossas relações estavam bem tensas.
Foi muito traumatizante, tive uma depressão terrível, daquelas de ficar prostrado... Apesar de tudo, eu NUNCA quis o final do Metrô com a Virginie, mas eu e ela fomos votos vencidos pelos outros três.
 
         O recomeço...
E fui tocar com o NAU (Vange Leonel, Zique, Birger) fiz alguns shows e ADOREI...Voltei para vida com eles...
 
Um dia, uns seis meses depois, os meninos vieram me convidar para tocar com Pedro D'Orey, cantor português do Mler IF Dada produzido por Paulo Junqueiro (vale a pena ouvir). Tocamos e foi ótimo.
Passamos 6 meses numa casa alugada, em frente ao estádio do Pacaembu, improvisando e gravando centenas de horas de material... Recebíamos muitas visitas... Mulheres negras e outros... Rolavam altas JAMS, virávamos noites e noites...
Tínhamos voltado para música... E a Sony topou lançar o material gravado em alguns dias. Tudo LIVE, como Metrô. Na verdade já tínhamos outro nome, vide dicionário do rock brasileiro: TRISTES TIGRES.
Fizemos alguns shows legais em teatros no Sergio Cardoso, Caetano de Campos... Lembro que fizemos um show onde convidamos um grupo de pagode (de raiz) e tocamos todo A MÃO DE MAO, em ritmo de Samba. Nessa época começamos a flertar com a música Africana e incorporamos dois percussionistas na Banda: Carneiro, hoje morando em Paris e no mundo tocando com o famoso e Maravilhoso Saint Germain; e Girley Miranda (Maravilhosa!!!!!)
Quase lançamos um disco chamado AXÉ (que bom que não fizemos!!!!!). Era antes da onda Axé na Bahia, mas tinha mais a ver com a música Africana e Cubana... Pedro sumiu, não aparecia nos Shows e levávamos um tape gravado pelo artista plástico Fernando Zarif, com falas, ruídos, teatro, e soltávamos durante as músicas... Hamilton Moreno, dos Heartbreakers, vinha dar canjas... E quem quisesse no show podia subir e cantar...(!!!!)
Não houve um fim marcado, foi acabando aos poucos...
 
Enquanto isso Virginie fez um disco com o Fruto Proibido e depois foi trabalhar com Arrigo Barnabé. Gravaram um disco LINDO na França só de Bossa Nova (INÉDITO!!!!!) e ainda com Itamar Assunção, Carlos Careqa...
 
Depois, Yann foi tocar com Rita Lee, e após um Tour Europeu, casou e ficou por lá (8 anos!!!!). Zaviê e eu nos reunimos com André Fonseca (ex-Patife) e Cherry Taketani no "O KOTO", música punk eletrônica com instrumentos típicos japoneses... Alec foi para França com a mulher e voltou depois de algum tempo.
Tempos depois, eu e Zav nos encontramos com Yann em Bruxelas (fugidos do Collor), onde passei 2 anos. Formamos uma banda com um guitarrista africano e um cantor e guitarrista búlgaro e gravamos um CD: "The Passengers", fizemos muitos shows pela Bélgica e França no circuito Underground... Abrimos o La Muerte (TRASH METAL) em Paris! Tocamos com Zap Mama e também com Plastic Bertrand ("Ça plane pour moi" mega hit dos anos 80 em toda Europa).
Mas tudo era complicado: quando não brigávamos, eram nossas mulheres que saíam no pau, literalmente! Voltei para o Brasil por um convite de Bia Lessa, com quem já tinha trabalhado em "Orlando", para fazer "Viagem ao Centro da Terra" no Rio. Voltei correndo!!
 
         A volta...
Voltamos a trabalhar em Janeiro na minha casa em Santa Teresa (da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, lindo!). Estávamos ensaiando trabalhar juntos já havia mais de 1 ano, mas nunca dava. Cada um morando em um lugar diferente e com a vida já engatilhada.
Em Outubro do ano passado, nos encontramos em São Paulo a convite de Maluly (Produtor de "Beat", "Olhar" e "A Mão de Mao"). Maluly havia falado com Virginie e ela topou vir ao Brasil gravar.
 
Em vez de tocar, ficamos dois dias em São Paulo (Yann, Zaviê, Alec e eu) conversando e botando a vida em dia (o que foi ótimo!!!). O assunto morreu. Um dia encontrei Alec no show do Aphex Twin e ele me disse que não tinha a menor vontade de tocar conosco... Ficou por isso...
 
Até que, em janeiro, Yann me ligou, falei para ele vir ao Rio.
Começamos a trabalhar, não como Metrô, mas pensando em músicas que tinham nos marcado: músicas de nossa infância e adolescência (Caetano, Egberto, Gainsbourg). Começamos por aí. Na verdade, esse era um antigo projeto e sonho da Bia Lessa para um show de Maria Bethania e Hanna Shygulla juntas, e foi realizado na Sala São Paulo há algum tempo...
 
         As gravações...
Em um mês gravamos 20 músicas, mandamos para Virginie, na França, ela adorou, veio em abril, passou uma semana aqui em casa com as filhas, gravando de tudo.
Foi maravilhoso!!!! Foi como se nunca tivéssemos parado de trabalhar um minuto juntos nesses últimos 17 anos. Tudo fácil, gravamos com nossas crianças (um bando!!!) brincando em torno de "noís", cachorro latindo, uma zona!!!! Foi o ÊXTASE: todo mundo de calção e biquíni, voltando da praia, sem produção, nos divertimos pra valer!!!! Acho que isso fica bem claro na gravação.
 
Estamos muito felizes, gravamos umas 50 músicas... E convidamos vários amigos músicos, ou não, e DJs para gravar conosco (Cassim, Lucas Santana, Cibelle, Bruno LT). Estamos Mixando aqui em casa mesmo. E pretendemos lançá-lo até Novembro. E fazer Shows também, quando a Ginie vier. Quando ela não estiver, vamos fazer uns Lives PAs, com samples da voz da Ginie.
 
         Sobre a onda Revival...
Revival tem sempre, nos anos 80 o revival era dos 50. Confesso que acho cedo para um revival dos anos 80. Não deu nem para dar saudade... Só da Debbie Harry... E do John Lyndon também, mas o resto... Não tenho nostalgia dos anos 80... Na verdade nem dos 70... 60...
Gosto do presente, por isso acho que nosso CD, não tem a cara do Metrô. Aliás qual é a cara do Metrô? Beat? Ou a Mão de Mao? Talvez devamos continuar a decepcionar muita gente... Mas é inevitável... Não temos um compromisso com nada...
 
Também não sinto Metrô como representante dos anos 80... Fizemos dois discos apenas e um relativo sucesso durante dois anos (pouco para uma década, você não acha?).
Anos 80 para mim é Legião Urbana, Cazuza, Titãs... Tenho saudade da alegria do Ultraje. Inútil é um CLÁSSICO!!!!!
Adoro a cena atual... Os DJS... O Rap... O Hip Hop em Sampa, o Funk Carioca... A música no Nordeste: Mangue Beat, Otto, Carlinhos Brown etc. Os anos 90 foram RIQUÍSSIMOS.
Acho o Brasil incrível... Tem um talento a cada esquina... Pena que as gravadoras não entendam... É uma riqueza cultural!!!!! Não existe em nenhum outro país tanta diversidade.
Não entendo nada de mercado, nem quero entender. Acho que as gravadoras também não entendem NADA... Pois se olhassem um pouco para o nosso Brasil eles iam investir em TUDO e não em só um estilo... É de uma burrice que não tem tamanho... Brasileiro gosta de tudo!!!! E isso é uma QUALIDADE nossa.
Eu adoro Carnaval e Sepultura também... Isso faz o Brasil GENIAL... Enfim...
 
         O dia-a-dia...
Acho que posso dizer que nunca parei de pensar em Música, pois eu tocava bateria 10 horas por dia e hoje não toco esta carga nem em um ano...
Hoje eu passo 18 horas por dia no Pro-Tools, fazendo música... Gravando, editando e mixando. O mundo mudou para muito melhor, amigo!!! Não precisa mais de parafernália, estúdio, técnicos, assistente do técnico, assistente do assistente... Só um G4 e um pouco de imaginação...
Único senão foi com o maravilhoso Goodnight Varsóvia (Moreno Veloso, Cassim, Domenico, Pedro Sá, etc.) com quem fiz vários Shows em noites inesquecíveis aqui no Rio.
Toco e canto todo os dias com Clara, minha filha, que aos 3 já sabe todo repertório da Bjork e dos Beatles...
Estou lutando para acabar meu segundo filme: "Maria" (o primeiro foi Crede-mi, que também fiz com minha companheira nota 1000, Bia Lessa).
Já está todo filmado, foram 3 anos de viagens pelo Brasil, e estamos editando todo material na esperança de mostrá-lo no próximo Festival de Berlim, em fevereiro, pois já fomos convidados por Peter Shummam.
Tenho feito várias trilhas sonoras para teatro, desfiles, etc. (adoro!!), Copacabana também, último filme de Carla Camuratti, enfim...
Atuei muito no Teatro esses anos, mas já fazem uns três que estou longe dos palcos...
 
Mas o que mais amo mesmo, DE LONGE, é de ficar com minha filha pequena, brincando, lendo historinhas, ouvindo música e vendo velhos filmes do Beatles...
ELA É DEMAIS!!! VOCÊ NÃO ACREDITA!!!!!
Enfim... C´est Tout!!
 
 
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