OLHAR
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A PRÓXIMA ESTAÇÃO DO METRÔ
Coluna Vertebral
02/2003
 
O ano de 2002 vai ficar realmente marcado no rock nacional pela volta de bandas bacanas dos anos 80. Quem leu o meu texto de estréia na Coluna Vertebral, “A Volta dos Que Não Foram”, sabe bem disso. E quando todos achavam que a temporada de retornos tinha acabado, eis que vem à luz o CD “Déjà-Vu”, lançado pela banda Metrô.

Quem está na casa dos 30 anos certamente irá lembrar deles. Acabaram se destacando na enxurrada de bandas que surgiram naquele período com um som bem diferenciado para a época. Enquanto a maioria era influenciada pelo punk-rock (um exemplo mais claro é o da Legião Urbana), o Metrô optou por outra linha, misturando guitarra e sintetizadores, naquilo que se convencionou chamar de tecnopop (ou synthpop) , estilo representado lá fora por grupos como Duran Duran e Depeche Mode.

Em 1984, já com esse nome, eles lançaram um compacto simples com a música Beat Acelerado. No ano anterior, haviam gravado um álbum (hoje raríssimo) com o nome de Gota Suspensa, marcado por uma forte influência do rock progressivo. Depois dessa virada na carreira, a sonoridade passou a atingir um público maior e em pouco tempo “Beat...” se transformaria num hit. O ano de 1985 marca a gravação do primeiro álbum, “Olhar”, e a resposta foi estrondosa. Para se ter uma idéia, esse LP gerou pelo menos seis sucessos radiofônicos: “Olhar”, “Cenas Obscenas”, “Tudo Pode Mudar”, “Sândalo de Dândi” (que era lado B do primeiro compacto), “Ti-Ti-Ti” e “Johnny Love”. Esse feito de emplacar vários hits em seqüência só viria a ser repetido pela Legião, no seu clássico “As Quatro Estações”, de 1989. No auge da popularidade, a vocalista Virgine deixa a banda, no final de 85. Após um período de breve descanso, o Metrô arruma um novo vocalista (o português Pedro Parq) e solta no mercado “A Mão de Mao”, em 1987. O disco foi muito bem de crítica, mas não vendeu como o esperado. Por outro lado, Virginie ensaiou uma carreira solo com o disco “Fruto Proibido”, que chegou a ceder a faixa “Más Companhias” para a trilha sonora de uma novela da Globo: “Fera Radical”. Terminava assim, de forma melancólica, a primeira parte da carreira do conjunto.

O sucesso do Metrô em sua época se deveu a uma excelente combinação de fatores. Primeiramente, a sua sonoridade, resultado da mistura já citada aqui nesse texto, que trazia um certo ar de modernidade. Depois, as letras (na maioria, vindas de outros compositores) que refletiam uma angústia juvenil, resultado de paixões mal-resolvidas (caso de Johnny Love), ou então da busca de um amor verdadeiro (como em “Olhar”). Outra letra que merece destaque é “Cenas Obscenas”, gravada em parceria com Léo Jaime. Por último, mas não menos importante, temos o carisma e talento da vocalista Virginie, uma das melhores de sua geração. Mesmo com todos esses atributos, a banda acabou caindo num injusto ostracismo nos anos que se seguiram, ao contrário de outras que, mesmo após terem encerrado a carreira (ou se tornarem bissextas), continuaram sendo lembradas.

Porém, quando tudo parecia perdido, surge a grande surpresa: o Metrô estava para lançar material novo com praticamente a mesma formação original dos anos 84-85. O resultado é o sensacional “Déjà Vu”. Ao contrário de muitos colegas de geração, a banda recusou tentadoras propostas de fazer acústicos e/ou apresentações eletrificadas ao vivo. Em vez disso, optaram um outro caminho. O resultado é um dos melhores CDs do ano passado, nada mau para quem gravou as músicas quase de forma artesanal, sem a estrutura de uma “major”. A coisa rolou assim: Danny, Yann e Zaviê, três de seus remanescentes, se reuniram para ensaiar e gravaram algumas bases. Virginie, que atualmente mora fora do Brasil com o marido e os filhos, esteve por aqui para colocar voz. Outros músicos foram convidados para fazer “overdubs”, entre eles nomes de peso como Jorge Mautner e Otto.

O Metrô 2002/2003 trafega numa trilha que pode ser chamada de “pop experimental”, cujo representante mais conhecido e melhor sucedido é o Fellini. Há três regravações de sucessos antigos: “Johnny Love”, desta vez numa versão bem mais sexy, “Beat Acelerado” e “Sândalo de Dandi”, esta última gravada (e a melhor de todas) pensando em Belle & Sebastian, conforme a descrição publicada no site oficial da banda. Outras faixas são covers, se destacando “Mensagem de Amor”, composta por Herbert Vianna, e “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso. Há ainda uma releitura para a tradicional “Aquarela do Brasil”, mas que procura fugir daquela fórmula de “macumba para turista ver”. Além disso, muitas canções em inglês fazem parte desse CD. Será uma tentativa de emplacar o Metrô lá fora?

Para quem deseja obter maiores informações sobre o Metrô, indico aqui dois sites. Um deles é mantido pela fã: Silvana Castro. O outro é a página oficial da banda.

Discografia selecionada:

A Gota Suspensa (1983) – Underground
Beat Acelerado/Compacto (1984) - Epic/CBS (hoje Sony)
Olhar (1985) – Epic/CBS (hoje Sony)
A Mão de Mão (1987) – Epic/CBS (hoje Sony)
Déjà Vu ( 2002) – Trama
(“Olhar” e “Déjà Vu” são facilmente encontrados no formato CD)

P.S.- A revista na sua primeira edição de 2003 resolveu inovar. Em vez da tradicional votação de melhores do ano, decidiu-se apurar os melhores álbuns do rock brasileiro nos últimos 20 anos. Foi a maior votação gênero já feita, salvo engano. O colégio eleitoral teve 177 votantes, entre músicos e jornalistas. O vencedor foi "Nós Vamos Invadir Sua Praia", do Ultraje a Rigor, seguido de "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, e o álbum de estréia da Legião Urbana. Entre os cinco primeiros, a única banda que não apareceu na década de 80 é Los Hermanos. O incompreendido "Bloco do Eu Sozinho" ocupou a quarta colocação e "Vivendo e Não Aprendendo", do Ira! ficou na quinta. O resultado completo está no site da revista, com a lista de todos os álbuns que foram votados, assim como seus eleitores, entre os quais este colunista. Confira mais nesse endereço: Revista Zero. Uma de minhas escolhas que entrou na lista dos Top 10 foi "Afrociberdélia" de Chico Science, ocupando a sétima colocação. Alguns deverão reparar que eu votei em "Passos no Escuro", da banda Zero, que conseguiu uma boa popularidade nos idos de 1986. Pode parecer uma ironia o voto na banda Zero para uma votação promovida pela revista Zero, mas foi a sério mesmo. O Phillpe Seabra, da Plebe Rude, também lembrou dele. Se eu pudesse ter votado em mais álbuns, teria incluído "Suspeito", de Arrigo Barnabé e "Olhar", do Metrô. A lista final está bem redonda, sem grandes injustiças, contemplando tanto o mainstream como o independente, e isso é muito saudável.
(Rodney Brocanelli)

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